11 de agosto de 2017

Literatura e resistência no Brasil hoje

Regina Dalcastagnè


A filha morta


Gostaria de iniciar minha fala lembrando de uma entrevista com um grande escritor brasileiro, que se debruçou com ética e desalento sobre o seu tempo. Antonio Callado afirmava que um escritor pode inventar qualquer coisa, menos uma revolução que não aconteceu. Não aconteceu nos anos 70 e não acontecerá hoje. Este não é um país de revoluções, o que não significa que não seja um lugar de profundas e históricas lutas de resistência – que o digam os descendentes dos africanos escravizados, cada menino e menina negros por este país afora. Que o diga Rafael Braga!

Por isso, nessa mesa sobre artes e revolução, vou falar de literatura e resistência no Brasil hoje.

Sartre dizia que a tarefa do escritor é fazer com que ninguém possa ignorar o mundo e se considerar inocente diante dele. Pergunto se essa não é a nossa tarefa, também, como pesquisadores e, fundamentalmente, como educadores. A cada vez que entro em uma sala de aula, quando me sento para ler uma tese ou para escrever sobre um livro, quando me vejo nessa posição, em um evento acadêmico sobre literatura, penso o quanto seria inócuo um trabalho, uma vida, que ignorasse a sua implicação e a sua responsabilidade com o mundo lá fora, para além dessas paredes que nos protegem e nos sufocam.

Em tempos de golpe de Estado e de avanço dos discursos fascistas no país, gostaria de propor uma breve reflexão sobre as formas de resistência que vêm sendo construídas no interior do campo literário brasileiro, me inserindo, desde já, ao lado daqueles que resistem.

Para isso, é preciso lembrar, antes de mais nada, que o golpe instaurado no país em 2016, e que continua se processando neste momento, tem como objetivo a destruição dos direitos trabalhistas, a entrega das riquezas do país ao capital internacional, a divisão do butim entre os banqueiros, os latifundiários, os especuladores, os donos da grande mídia. Mas que, para conseguir isso, eles precisam conter o movimento de democratização que, de algum modo, se fortalecia no país, especialmente a partir do acesso à educação pública e à cultura. Portanto, esse golpe se estabelece contra os direitos das mulheres, dos negros, dos trabalhadores, dos moradores das periferias, da população LGBT; contra sua inserção social e contra suas formas de expressão. Se estabelece, também, contra o ensino público, gratuito, laico e de qualidade. Não é à toa que temos uma universidade como a UERJ abandonada pelo poder público, sem o pagamento dos salários de seus funcionários e professores, fechada por tempo indeterminado.

Daí a importância de estarmos aqui dentro hoje, ocupando esse espaço, essas mesas e cadeiras, esses corredores. Esse encontro se configura, assim, como um manifesto de solidariedade aos que estão lutando contra a destruição da UERJ, entendendo que esta não é uma peça que cairá sozinha. Sabemos bem que a campanha para o fim do que chamam de “injusto ensino gratuito” tem um olho na desoneração do Estado, outro no bolso dos que mercadejam o ensino privado e um terceiro (é, eles são umas aberrações) na possibilidade de perseguição de uma parcela importante da militância contra o golpe, ou seja, nós, professores e estudantes.

Agradeço e parabenizo, então, toda a direção da ABRALIC, representada por João Cézar de Castro Rocha, e toda a equipe de organização, incluindo aí os monitores, estudantes que se empenharam para que pudéssemos estar aqui e expressar nosso descontentamento e nos organizar em torno de uma luta que é urgente e implica a nossa sobrevivência enquanto professores e pesquisadores de literatura.

Afinal, o que podemos imaginar que vá sobrar para nossa área após esse inconcebível desmonte? O que faremos com o anunciado fim das bolsas do CNPq, com o já efetivo desaparecimento dos editais de financiamento para pesquisa, para eventos, para publicação de periódicos, com o contínuo desprezo aos estudos literários na educação fundamental e no ensino médio? O que diremos aos nossos estudantes, aos nossos orientandos que se preparam para ser professores? O que restará daquilo que acreditamos?

E não me refiro apenas à nossa carreira (o que já é muito sério), mas ao nosso entendimento da função dos estudos literários em nossa sociedade. O que vai muito além da simples “preservação” de um cânone, ou de uma lista de nomes de obras fundadoras em um quadro negro.

O historiador francês Lucien Bianco dizia que “as armas dos fracos são sempre fracas armas”, mas é com elas que teremos que lutar. Nossas soluções serão provisórias e, certamente, angustiadas, mas talvez nos permitam ficar de pé enquanto as coisas não mudam. Podemos usar o discurso, nossa arma principal, para referendar o que querem os poderosos (como fazem alguns colegas e escritores), mas também podemos usá-lo para desmascará-los ou, mesmo, para tirar-lhes o sossego. É tempo de disputar consciências e tentar preservar espaços democráticos de enunciação de discursos, de representações do mundo.

Por menor que seja esse nosso restrito circuito acadêmico e literário, temos muitas frentes de resistência aqui. Elas podem ir desde a produção de autoras e autores negros, pobres e de periferia, que insistem em fazer arte em um mundo que nega valor à sua experiência, e mesmo à sua vida; até a recente retomada da ditadura como tema literário, por exemplo, com o resgate de memórias apagadas e a sinalização de riscos que não são passado, mas, infelizmente, possível futuro para nós.

A resistência passa, ainda, pelo esforço de pequenas editoras, de pequenas livrarias, de coletivos de escritoras e escritores que estão se organizando, nesse instante mesmo, para manter abertos espaços de publicação e divulgação da literatura. Todo um conjunto de pessoas que buscam, de algum modo, se erguer contra o amesquinhamento do mundo e o desmonte de nossa cultura.

Outra dessas frentes passa pela nossa atuação como professores e críticos literários, pelo necessário apoio aos nossos estudantes e orientandos em suas escolhas e em suas dificuldades, pessoais, econômicas, políticas. E passa – não poderia deixar de ressaltar – pela resistência ao nosso próprio conceito de literatura, ao enquadramento que damos ao literário, ao que aprendemos ser o bom, o belo, o correto, o legítimo, à nossa tendência a excluir tudo aquilo que escapa desses contornos tão pré-estabelecidos.

Em todos os extensos levantamentos que venho coordenando a partir da Universidade de Brasília, seja sobre os autores e romances publicados pelas grandes editoras (já temos dados sobre cerca de 700 romances, cobrindo os últimos 40 anos); seja sobre nossa própria produção enquanto pesquisadores da literatura (temos dados sobre mais de 3 mil artigos publicados em revistas A1 – as melhor conceituadas na área – nos últimos 15 anos), é possível observar uma preocupante repetição do mesmo.

Entre os autores e personagens, um mesmo perfil muitas vezes reiterado: brancos, homens, classe média, heterossexuais, moradores de Rio de Janeiro e São Paulo (o mesmo perfil dos autores que são resenhados, premiados, traduzidos e adquiridos pelas bibliotecas).

Entre a produção acadêmica, entendendo-se que os artigos em periódicos sejam reveladores do que se está pesquisando e ensinando nas universidades, vemos os mesmos temas se repetirem, os mesmos escritores sendo estudados, os mesmos teóricos dando suporte à discussão. Nem é preciso dizer que, mais uma vez, esse perfil é branco, masculino, eurocêntrico etc. E, aqui, temos ainda o constrangimento de esclarecer que a maior parte da autoria dos artigos (quase 60%) é composta por mulheres – ao contrário da autoria dos romances, onde as mulheres não chegam a 30%.

Me refiro a esses dados só para lembrar que precisamos refletir sobre nosso modo de olhar o mundo, nos situar e agir nele. Precisamos refletir sobre o que estamos escolhendo legitimar como literário, sobre o que estamos excluindo quando fazemos isso e por quê. Precisamos, enfim, pensar sobre o que estamos pensando, como dizia Pierre Bourdieu.

Esse é um chamado a todos nós, professoras, professores e estudantes, mas também aos escritores, editores, tradutores, livreiros, bibliotecários, jornalistas, gestores públicos, curadores... A defesa da literatura brasileira tem de ser a defesa de uma literatura para todos, feita por todos que acreditem ter algo a expressar sobre o mundo.

Com o fim – primeiro de jure, agora de facto – do Ministério da Cultura, com o fim dos programas de compras de livros para as escolas pelo Ministério da Educação, com a sombra que ronda a universidade pública, com o desaparecimento do ensino de literatura nas escolas, com o avanço da patrulha do pensamento crítico que atende pelo nome risível de “Escola Sem Partido”, o que restará para ser lido e estudado daqui para frente? Meia dúzia de autores iluminados? Seremos os últimos guardiões de textos que já não dirão mais nada a ninguém? Talvez eu esteja sendo muito apocalíptica, não sou da turma dos “tranquilos”. Mas ainda quero crer que podemos manter alguns espaços conquistados.

Ressalto, então, a importância de alguns movimentos que podem ser fortalecidos por nós de diferentes maneiras, a começar pelo efetivo acompanhamento dessa produção:

Primeiro, os coletivos de autoria negra, que têm início no final dos anos 70, começo dos anos 80, com a publicação dos Cadernos Negros, por exemplo, e que se desdobram hoje em uma série de editoras especializadas, como a Mazza, a Nandyala, a Pallas, a Oguns Toques Negros, a recentíssima Malês, entre outras, incluindo ainda espaços em sites e blogs, que armazenam e divulgam essa produção, rica, extensa e variada.

Ao lado deles, há os coletivos de periferia, que, como lembra Michel Yakini, escritor, editor e ativista da periferia de São Paulo, ajudam a formar leitores, não só para a literatura produzida ali, mas também aquela publicada pelas grandes editoras: “tá lá neguinho participando dos saraus com o Leminski da Companhia das Letras embaixo do braço”, ria ele em uma palestra outro dia, pedindo reconhecimento de todo um trabalho cultural que vem sendo realizado nesses espaços.

Também as organizações de mulheres, que estão se juntando para ler, publicar e estudar outras mulheres, ajudam a ampliar o espaço da literatura. A preparação coletiva do Mulherio das Letras, sugerido pela escritora Maria Valéria Rezende, e já com mais de 5 mil mulheres em rede (que se reunirão em um grande encontro em João Pessoa agora em outubro) é um marco importante de resistência no campo literário.

Há ainda um jornalismo cultural que resiste bravamente, como o Suplemento Pernambuco, por exemplo, e curadores de festivais preocupados em democratizar inclusive espaços comerciais, como fez Josélia Aguiar neste ano.

Por fim, tem uma garotada de diferentes regiões do país se juntando e publicando coletâneas belíssimas em formato digital aqui e ali, disponibilizando seu trabalho gratuitamente pelas redes sociais; e editores empenhados e teimosos, que continuam publicando livros de autores brasileiros, em tiragens reduzidas ou mesmo com impressão livro a livro. Todos fazendo um esforço miserável para divulgar sua produção, muitas vezes ignorada por nós porque ainda valorizamos demais os livros publicados pelas grandes editoras, resenhados pelos grandes jornais e expostos nas prateleiras das grandes livrarias, quando, na verdade, o mais interessante e original está, a meu ver, acontecendo muito longe dali.

Só como exemplo, o belo Impossível como nunca ter tido um rosto, último livro de Ricardo Aleixo, poeta de Minas Gerais com inúmeras obras publicadas, foi editado por sua própria conta, é vendido diretamente por ele, pela internet, e foi lançado em uma ótica em Belo Horizonte. Já Conceição Evaristo, aos 70 anos de idade, ainda anda com sua malinha cheia de livros para vender ela própria em suas palestras pelo país e mundo afora – nunca são suficientes!

Não custa lembrar que essas obras, de escritores negros, periféricos, de mulheres e mesmo jovens fora do eixo, causam – em diferentes medidas e proporções – uma dissonância em um campo literário que se quer harmônico, estável e consolidado. A disputa por espaço que esses autores e autoras empreendem não é algo que determinados grupos, determinados críticos e determinados escritores (muito certos de sua própria superioridade) aceitam entender como legítima.

A negação da validade dessas expressões é, como já disse, um dos objetivos desse golpe. A elite brasileira não aguenta ver sua empregada doméstica disputando a vaga do vestibular com seus filhos, não suporta vê-la como professora, não aceita imaginá-la como uma pesquisadora, como uma escritora, como uma artista. Mas elas estão aí!

Cabe a nós a reflexão sobre os significados dessa disputa e o sentido – estético e político – dessas obras. Se eximir dessa discussão é, muitas vezes, já se situar – do lado daqueles que ocupam as posições centrais no campo literário e social. Ser indiferente não me parece ser uma opção hoje, se é que algum dia já foi.

E aqui retomo as palavras de Abel, protagonista do romance Avalovara, de Osman Lins (publicado em 1973), e que também é um escritor angustiado com o seu tempo, assim como Antonio Callado e tantos outros e outras: “A indiferença do escritor é adequada à sua presumível elevação de espírito? Para defender a unidade, o nível e a pureza de um projeto criador, mesmo que seja um projeto regulado pela ambição de ampliar a área do visível, tem-se o privilégio da indiferença? Preciso ainda saber se na verdade existe a indiferença: se não é e isto um disfarce da cumplicidade. Busco as respostas dentro da noite e é como se estivesse nos intestinos de um cão. A sufocação e a sujeira, por mais que procure defender-me, fazem parte de mim – de nós. Pode o espírito a tudo sobrepor-se? Posso manter-me limpo, não infeccionado, dentro das tripas do cão? Ouço: ‘A indiferença reflete um acordo, tácito e dúbio, com os excrementos’. Não, não serei indiferente”.

Participar do debate político em um momento de ruptura da democracia, contaminar a própria escrita, ou a crítica, em busca do desmascaramento de um processo autoritário é ainda acreditar – nos homens e mulheres e na própria literatura como instrumento de ação. Quando desistirmos de nossa capacidade de acreditar, a luta, enfim, estará perdida.

Gostaria de finalizar minha fala com uma imagem. É do século XIX, dos primórdios da fotografia, quando ela não era acessível a todos (e seus dispositivos não podiam ser carregados dentro do bolso traseiro da calça). Durante séculos, gerações viviam e morriam sem ter uma única imagem registrada. A fotografia permitiu isso, a materialização da memória, mas muitas vezes alguém querido falecia antes que se tivesse tempo de fotografá-lo. Daí o surgimento de toda uma engenharia para fotografar pessoas já mortas como se estivessem vivas: suportes metálicos para a sustentação dos corpos, maquiagem apropriada antes e pintura na pós-produção da fotografia, entre outras técnicas e estratégias próprias de cada fotógrafo para cada situação.

Com a popularização da fotografia tudo isso foi desaparecendo, é claro. Mas lembrem que as primeiras câmeras fotográficas – os daguerreótipos – exigiam um tempo de exposição muito longo, para que a imagem se fixasse na película de prata que recobria a placa de cobre. Por isso as fotos antigas trazem figuras tão rígidas, ninguém podia se mexer ou a imagem ficaria desfocada.

Nesta foto, a filha está morta. Reparem como seu rosto é tranquilo e nítido. Enquanto isso, os rostos dos pais perdem clareza e foco. É que respirar gera movimento. Estar vivo impossibilita a fixidez.

Essa imagem, em sua tristeza contida, é uma metáfora sobre a necessidade do movimento para confirmar a vida, e da necessidade de nos deslocarmos para enxergar o que está vivo ao nosso redor, nos deslocarmos de nossos conceitos fechados, de nossas ideias prontas, que sufocam e paralisam. E não importa que percamos um pouco o chão que nos protege, que não consigamos ver com nitidez completa aquilo que queremos entender, descrever, analisar – é preciso apostar na fertilidade da vida, mesmo quando tudo à nossa volta parece negar suas possibilidades.

Esse é, para mim, o nosso mais significativo gesto de resistência, em direção aos outros e ao imponderável. E a literatura... pode ser um delicado convite para esse movimento.
  
Intervenção na mesa “Artes e Revolução”, no XV Congresso Internacional da ABRALIC, na UERJ, Rio de Janeiro, no dia 9 de agosto de 2017.



5 de agosto de 2017

A “mulher subversiva” na ditadura no Brasil e na Argentina

Aline Teixeira da Silva Lima


Imagem: Afarin Sajedi



O que diabos estavam as mulheres fazendo
metidas em política, tornando-se ainda por cima guerrilheiras,
numa época em que se ainda esperava delas
que ficassem circunscritas no âmbito do lar
e da vida privada? Putas comunistas.
Adriana Lisboa, Azul corvo

Sabe-se que muitas mulheres lutaram, juntamente com os homens, militando pela redemocratização dos países que adotaram o regime militar, porém, a figura feminina sofreu um apagamento na História. A razão desse apagamento tem suas raízes na cultura patriarcal, em que a “mulher correta” não deveria ultrapassar a área a ela destinada, o espaço privado, para se tornar um sujeito político, no espaço público. A sociedade, estruturada a partir de tal premissa, sempre ditou como as mulheres devem se comportar:
La mujer buena es encantadora, educada y discreta. Las mujeres buenas trabajan, pero se conforman con ganar el 77 por ciento de lo que ganan los hombres o, dependiendo de a quién preguntes, las mujeres buenas tienen hijos y se quedan en casa a criarlos sin rechistar. Las mujeres buenas son modestas, castas, sumisas. Las mujeres que no adhieren a estos cánones son las desgraciadas, las indeseables; son malas mujeres.(GAY, 2016, pp. 303-304)
Partindo dessa conjuntura, é estranho pensar em mulheres lutando contra o autoritarismo e a supressão dos direitos constitucionais, que marcaram o período de exceção, e resistindo às perseguições políticas, à prisão e à tortura por parte das Forças Armadas. Entretanto, caminhando na contramão do que dita esse sistema social em que os homens são os detentores do poder, muitas mulheres, nos anos de chumbo, contestaram sim a ordem estabelecida e romperam com “o estereótipo da mulher restrita ao espaço privado e doméstico, enquanto mãe, esposa, irmã e dona de casa, que vive em função do mundo masculino”. (RIDENTI, 1990, p. 114)     
 De acordo com Luis Miguel e Flávia Biroli, “hierarquias e desigualdades sociais são confirmadas e reproduzidas por meio de palavras e imagens que naturalizam comportamentos e pertencimentos”.(MIGUEL e BIROLI, 2011, p. 11.) Nesse sentido, a literatura, enquanto representação da ordem objetiva, espaço onde circulam tanto ideologias, como discursos, pode contribuir para manter os estereótipos femininos aqui já mencionados ou, ao contrário, desconstruí-los, ao instigar questionamentos e reflexões sobre as estruturas de dominação e os papéis impostos de maneira tão arbitrária a ambos os sexos, os quais são consolidados ao longo da história e reforçados pelos valores, aqui já explicitados, que ainda vigoram em nossa sociedade. Assim, a fim de refletir sobre como a personagem mulher militante é representada nas narrativas contemporâneas, analisar-se-á a representação dessas “mulheres subversivas” em Volto semana que vem (2015), da escritora brasileira Maria Pilla, que apresenta uma protagonista-testemunha, a qual militou durante as ditaduras militares brasileira e argentina.
Com capítulos curtos e sem obedecer a uma ordem linear, esta mulher recupera recortes de memórias sobre sua infância em Porto Alegre, a ativa juventude no curso de Jornalismo, a militância política, que a conduz ao exílio e, posteriormente, à prisão, entre outros acontecimentos. O título do livro faz referência a uma frase dita ao próprio pai ao sair em uma viagem. Todavia, ela não pôde cumprir sua palavra por conta das barbáries cometidas pelo regime militar, que a acometeram. Ela só irá reaparecer em casa mais de vinte anos após esse episódio. Rompendo com os padrões tradicionais de gênero, essa mulher, agora já madura, que foi presa e torturada, detém o poder do discurso e, por meio dos seus relatos, ela constrói uma narrativa de sua vida, em que seu ativismo político é o tema central.
A narradora adentrou esse território “proibido” às mulheres – o público, masculino e político-, ainda jovem, se engajando em organizações clandestinas, tanto no Brasil como na Argentina, manifestando, assim, seu repúdio àquele regime e resistindo ao golpe. Com apenas quatro anos de militância no Brasil, devido a uma ação da Oban (Operação Bandeirantes), a ideia do exílio surgiu. Percebe-se, portanto, que “a tomada de decisão de viajar para a França [que] foi tomada debaixo de grandes plátanos vizinhos ao cemitério da Consolação”(PILLA, 2015, p. 56), teve por motivo fugir da violência que já circundava a mesma e seus companheiros. A partir da resolução de se exilar, sua vida é perpassada por um trânsito constante: São Paulo, Chile, Argentina, Paris, Porto Alegre, entre outros.
Acompanhando o trajeto da protagonista, após o exílio, a mesma encontra-se na Argentina, a qual também sofrera um golpe militar em 1966. Dessa maneira, com o objetivo de continuar a militância, é que a protagonista teve como destino esse país. Lá, se filiou ao ERP: “Ejercito do Partido Revolucionario del Pueblo, estrutura militar do Partido Revolucionario de los Trabajadores”(PILLA, 2015, p. 15). Pelo o que já foi aqui exposto, percebe-se que a narradora não se encaixa no modelo de sexo frágil atribuído à mulher pela estrutura patriarcal. Pelo contrário, em Volto semana que vem, ela mesma afirma que não se enquadra neste estereótipo ao dizer que “indo pelos anos 60 eu já militava, e os ideais femininos da época passavam longe da minha preferência. Os bailes da Reitoria, mesmo sendo unanimidade na minha geração, não exerciam o mesmo fascínio sobre mim. Os namorados que me interessavam estavam no meio militante”(PILLA, 2015, p. 50). Outro aspecto que foge desse modelo do patriarcado é que, no recorte temporal feito por ela (1950 a 1984), a temática do amor não é abordada. Apesar de mencionar alguns namorados, ao longo da narrativa, ela não descreve ou explicita a dinâmica desses relacionamentos, ou seja, não há investimento neste assunto. Os relatos mais avançados deste recorte de memórias datam 1984, quando ela teria 38 anos, o que seria, de acordo com a concepção tradicional de família, uma idade já atrasada para o matrimônio, mas tal assunto não é sequer mencionado, fugindo, assim, do que a sociedade espera das mulheres, isto é, que sejam boas mães e esposas e que jamais ultrapassem o espaço do privado.
Na Argentina, em 1975, a narradora-personagem é presa. Ela cumpriria, entre as prisões de Olmos e de Devoto, aproximadamente dois anos de pena. Neste espaço, a ideia da fragilidade da mulher também é desconstruída. As presas políticas que ali se encontravam, e ela própria, apesar do medo que sentiam, não são descritas de maneira vitimizada, mesmo após as torturas físicas e psicológicas pelas quais passaram. Destaca-se que mesmo encarceradas, elas, como sujeitos políticos que eram, resistiam da forma que podiam, como no episódio em que descosturaram os uniformes para não os vestir, porque estavam no verão e estes eram demasiado quentes, por serem escuros e feitos de sarja de lã. E “apesar dos numerosos castigos individuais e coletivos, nos meses que se seguiram as presas de Devoto jamais vestiram uniforme algum”(PILLA, 2015, p. 10). 
Em relação ao tema da tortura, a narradora o trata de maneira comedida, afinal esse assunto gera a tensão de narrar o inenarrável. Segundo Charlotte Delbo, o trauma seria não-representável, pelo fato de não fazer parte da ordem do simbólico e da linguagem. Dessa maneira, seria um conteúdo impossível de materializar-se em formas tradicionais de narrativas (DELBO, 1990). Logo, a protagonista opta por um sistema discursivo diferenciado, recuperando sua memória da tortura por meio de um sonho. Ao acordar, ela diz: “senti uma fisgada aguda no pé e levantei o edredom, agora muito sujo, em vez da gatinha, vi meus pés manchados de sangue e estrangulados pela corda. O cheiro: inesquecível cheiro de roupa suja misturado a um vago odor de pele queimada pelos fios desencapados”(PILLA, 2015, p. 46).
Observa-se que, mais uma vez, não há vitimização de sua figura ou um tom de lamento em suas palavras, demonstrando coragem e determinação, mesmo em frente à dor de tão terrível lembrança, indicando que sua decisão de aderir à militância, buscando, portanto, a derrocada da ditadura militar, foi tomada de maneira consciente, já que compreendia os riscos os quais corria. Outro relato do texto que endossa a força desta militante mulher é quando a mãe a culpa pela morte do pai, alegando que o mesmo teria morrido de estresse por conta de seu engajamento político. De acordo com a historiadora Ana Maria Colling, “inegavelmente houve uma ruptura entre a família e as mulheres militantes, principalmente pelas condições de clandestinidade em que se desenvolvia a atividade política” (COLLING, 1997, p. 61), assim, uma tensão foi causada entre a família e os ativistas políticos, pois aquela “sente-se traída pela opção política dos filhos” (COLLING, 1997, p. 112). Contudo, ao invés de interiorizar essa culpa, ela rapidamente a refuga, dizendo: “fiquei aturdida. Não sabia como ordenar os argumentos para tirar de sua cabeça [da mãe] ideia tão bárbara. (...). Disse que o pai tinha morrido porque estava doente e que a medicina não conseguira mudar esse fato”(PILLA, 2015, p. 65). Sem sentimento de culpa, rancor ou sentimentalismo, utilizando-se da razão, ela argumenta com a mãe, fazendo-a mudar de opinião.
O livro de Maria Pilla mescla memória, história e testemunho e evidencia que a produção literária feminina pode consumar-se independentemente do tema a ser abordado, descontruindo, pois, o preceito de que as mulheres deveriam se dedicar apenas a temáticas amenas e confessionais. Além disso, Volto semana que vem revela que as mulheres, nas ditaduras na América Latina, tornavam-se militantes das organizações clandestinas de esquerda em razão de suas convicções políticas, lutando por “um mundo que fosse bem melhor” (PILLA, 2015, p. 32). Dessa forma, o que leitor encontrará nesta obra é a perspectiva da própria guerrilheira, a qual é um ser pensante, independente, dona de suas próprias vontades e que transgride o mísero espaço privado a ela destinado. Nesta narrativa, a mulher torna-se sujeito, deixando de ser apenas objeto de representação de outrem. Desse modo, a representação da “mulher subversiva” de Maria Pilla se afasta daquela em que os conceitos em relação à mulher estão ancorados às estruturas patriarcais e se aproxima do sujeito social defendido por Teresa de Lauretis, em que este deve ser “múltiplo em vez de único, e contraditório em vez de simplesmente dividido”(LAURETIS, 1994, p. 208).


Referências
COLLING, Ana Maria. A resistência da mulher à ditadura militar no Brasil. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 1997.
DELBO, Charlotte. Days and memory. Vermont: Marlboro Press, 1990.
GAY, Roxane. Mala feminista. Madrid: Capitán Swing Libros, 2016.
LAURETIS, Teresa de. “A tecnologia do gênero”. In: HOLLANDA, Heloisa Buarque de (org.). Tendências e impasses: o feminismo como crítica da cultura. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.
MIGUEL, Luis Felipe e BIROLI, Flávia. “Gênero, mídia e política”. In: MIGUEL, Luis Felipe; BIROLI, Flávia. Caleidoscópio convexo: mulheres, política e mídia. São Paulo: Editora Unesp, 2011, pp. 11-33.
PILLA, Maria. Volto semana que vem. São Paulo: Cosac Naify, 2015.
RIDENTI, Marcelo Siqueira. “As mulheres na política brasileira: os anos de chumbo”. In: Tempo social. São Paulo, v.1, 1990, pp. 113-128.

28 de julho de 2017

É agora como sempre

Nívia Maria Santos Silva


Imgem: Robert Rauschenberg, Untitled, Tate Modern

Recentemente, a editora Companhia das letras lançou uma antologia de poetas brasileiros contemporâneos, É agora como nunca (2017), organizada pela cantora e compositora Adriana Calcanhoto. O título é um verso tirado de um dos poemas finais da antologia, “Ponteiro”, de Laura Liuzzi, publicado originalmente no livro Desalinho (2014), lançado pela saudosa Cosac Naify. Em seu subtítulo a antologia se promete: “antologia incompleta da poesia contemporânea brasileira”. A orelha, por sua vez, fala dos riscos que corre Calcanhoto “Ao apresentar esta reunião de 41 poetas brasileiros contemporâneos, instantâneos, novos, novíssimos”. O compromisso que ela assume não é a de uma especialista, mas a de uma “leitora especial – diletante e delicada”.
Não vou entrar na linha dos que rechaçam o livro por ter sido escrito por uma cantora e compositora, penso que ela já pagou pedágios suficientes para tanto, nem vou fazer a vez dos ressentidos por não terem os seus escolhidos na reunião de poetas aí elencados. Antologiar é selecionar, é escolher e, consequentemente, excluir. Daí a incompletude ser essência e não circunstância das antologias. Diante disso, o subtítulo se mostra redundante uma vez que toda antologia é uma reunião que parte de escolhas, muitas vezes, carregadas de subjetividade. Por isso, me incomoda a quantidade de ressalvas presentes na capa, na orelha, na apresentação. É possível fazer uma antologia que seja completa?
Fica evidente que a insistência com que pede desculpas é uma estratégia para atenuar possíveis críticas e diminuir o impacto das ausências. A impressão que passa é a de que não se deve exigir tanto do livro, afinal ele não passa de um “livro de férias” escrito por uma cantora. Será? Esse discurso da modéstia, e até de certo desinteresse, é o que me preocupa na antologia, pois, por mais que queira passar o ar de ser um livro “pessoal, intransferível, autoral”, ele é um registro desse “instantâneo da poesia brasileira agora” e, enquanto registro, sublinha nomes e demarca geografias.
A despretensão que acompanha É agora como nunca não condiz com a força comercial da editora Companhia das Letras que o publica, lança e distribui nacionalmente, nem com a visibilidade que a artista Adriana Calcanhoto dá à obra, pois ela, não só por causa de produções como o excelente Fábrica de poemas (1994), tem um nome conhecido e reconhecido como ponto de intersecção entre o campo da música e o campo literário, dos quais é uma habitué e uma das responsáveis, na contemporaneidade, por misturar esse caldeirão da letra de música e do poema num diálogo e, por vezes, numa fusão tão homogênea que não se sabe mais o que é o ferro ou o que é o carbono.
O que quero dizer é que o fato de Calcanhoto não ser uma “especialista” não conta como algo negativo, e sim aumenta ainda mais o apelo comercial da obra e seu alcance, já que amplia o público alvo para além dos muros da academia. É quase certo que nenhum dos poetas eleitos por ela vendeu tantos livros quanto ela vendeu CDs ou até mesmo seu divertido livro de crônicas, Saga lusa (2008), que escreveu em Portugal. O discurso da despretensão não consegue apagar também o fato de que a Companhia das letras atua como uma instância reguladora do meio, nem a realidade de que as antologias, historicamente, são importantes não só por afirmar e divulgar a existência desses ou daqueles poetas, mas, sobretudo, por atribuir-lhes uma chancela.
Não podemos nos esquecer, por exemplo, da importância de antologias como 26 poetas hoje (1976) e Esses poetas (2001), da atuante professora e crítica literária Heloísa Buarque de Holanda, nas quais se publicaram nomes como Francisco Alvim, Antonio Carlos de Brito (Cacaso), Capinan, Waly Salomão, Ana Cristina Cesar, Antonio Cícero, Carlito Azevedo, Ricardo Aleixo. A editora Objetiva, que hoje faz parte do grupo Companhia das letras, também lançou antologias que viraram referência, como Os cem melhores contos brasileiros do século e Os cem melhores poemas brasileiros do século, ambas organizadas pelo professor, crítico e poeta Ítalo Moriconi e lançadas em 2001. Além de selecionar e divulgar, ainda traziam na capa um juízo de valor, aqueles ali elencados eram os melhores do século, no caso, do século xx.
Curioso que, no mesmo ano, a editora Geração editorial também se aventurou a fazer uma antologia que reunisse os melhores do século passado, mas em vez de apostar nos poemas, intitulou a obra de Os cem melhores poetas brasileiros do século (2001), organizada pelo jornalista e poeta José Nêumanne Pinto. Como toda antologia é relativa, há poetas considerados melhores do século por Nêumanne que não têm poemas na antologia de Moriconi, como Bruno Tolentino, Ildásio Tavares e Orides Fontela, assim como há autores de poemas considerados melhores do século por Moriconi que não figuram na lista de Nêumanne, como Torquato Neto, Gilka Machado e Zila Mamede.
Em comparação com essas e outras antologias, como a coleção Roteiro da poesia brasileira, da editora Global, uma das coisas que fazem falta em É agora como nunca é a existência de um ensaio introdutório ou pelo menos de um texto de apresentação de maior fôlego. Talvez essa falta apenas seja coerente com a proposta de ser apenas a listagem de uma leitora “não acadêmica ou crítica”. Cabe destaque ainda a notável semelhança entre as capas de É agora como nunca e Os cem melhores poemas brasileiros do século. Além de ambas terem passado a ser do mesmo grupo editorial, a disposição dos nomes dos autores eleitos na capa e as cores em amarelo e azul fazem com que o despretensioso “livro de férias” lançado em 2016 remeta à pretensiosa seleção dos melhores lançada em 2001, dando um ar de continuidade ou, pelo menos, de sequência. Só que, enquanto a antologia de Moriconi diz abertamente para o que veio, a de Calcanhoto, por trás do mea culpa, parece querer disfarçar a sua importância e abrangência.
O que quero acentuar é que, por mais que haja critérios técnicos ou não ou que o antologista seja ou não um “especialista”, toda antologia, uma vez publicada, ainda mais se for por uma editora de peso, não é apenas uma “lista de preferidos”, é a formação de uma referência e, nesse caso particular, uma referência para se ler a literatura contemporânea, o que tem como efeito direto ou indireto a hierarquização e a valoração daqueles que passam a existir por meio dela e a ressoar, em alguma medida, na formação de novos poetas. Antologias publicadas viram testemunhos de época. A tarefa do antologista é criar uma espécie de catálogo, guia, inventário, por mais que pareça querer, Calcanhoto não pode fugir dessa responsabilidade.
Ao falar de responsabilidades, não posso deixar de realçar que positivamente a antologia colocou muitas poetas em cena. Apesar do placar continuar pendendo para eles, 18 mulheres e 23 homens, isso é de se comemorar. Não digo com isso que o gênero seja ou deva ser critério de escolha, mas que ele, assim como a etnia, a orientação sexual e a naturalidade, não deve ser critério de exclusão.
Não posso deixar de destacar também o quanto é sintomático na antologia de Calcanhoto a quantidade de poetas vinculados a uma só editora, 7Letras, e como não me causa estranhamento que a maioria dos escolhidos seja de um mesmo local do Brasil, Rio de Janeiro. Isso mostra a força da editora carioca que começou suas atividades em 1990, chegou a ter uma influente revista literária, Inimigo Rumor (1997-2007), e vem acumulando reconhecimento de público e crítica, apresentando um catálogo dedicado à literatura, sobretudo aos livros de poesia, através dos quais investe em novos poetas.
Essa força do mercado pode explicar um dos porquês de o Rio de Janeiro ter feito tanto volume na antologia. Entretanto, perceber que a centralização em uma localidade do Sudeste não se atenuou é um tanto desapontador, ainda mais num momento histórico em que a poesia se expandiu para além do livro e a internet diminuiu distâncias, podendo ser uma ferramenta para uma seleção mais ampla daquilo que se propõe nacional, principalmente algo organizado por alguém que é apresentada como uma leitora que “acompanha com entusiasmo a produção poética brasileira de hoje”.
Não é como a antologia da FUNARTE, 41 poetas do Rio (1998), sob a organização de Moacyr Félix, que tinha por objetivo se circunscrever a poetas que residiam no Rio de Janeiro. É agora como nunca se apresenta como um recorte da poesia contemporânea brasileira. Talvez o problema esteja novamente no subtítulo da referida antologia, pois, se é óbvia ao se confessar incompleta, é inconsequente ao se presumir nacional.
Por isso me preocupa a sua suposta despretensão. Vendida como “livro de férias”, a antologia é um mapeamento da poesia contemporânea mais recente que vai para as salas de escolas e universidades, foi inclusive lançada em Portugal pela editora Cotovia, uma das parceiras da 7Letras na Inimigo Rumor. Não por ser algo particular, mas por ser algo que se tornou público, mesmo que o livro não queira entrar na seara do debate acadêmico, ele instiga diversas discussões que vão além do irrefletido “por que esse e não aquele poeta?” ou do preguiçoso julgamento “isso não é poesia!”.    
Algumas coisas continuam agora como sempre. Cabe a nós leitores problematizá-las. Este texto existe não para questionar a importância da antologia É agora como nunca, mas por perceber nela mais importância do que ela mesma se dispõe a oferecer. Afinal de contas, toda antologia é uma convocação à leitura.

REFERÊNCIAS

CALCANHOTO, Adriana. É agora como nunca: antologia incompleta da poesia contemporânea brasileira. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

HOLANDA, Heloísa Buarque. 26 poetas hoje. Rio de Janeiro: Editora Labor, 1976.

_____________. Esses poetas: uma antologia dos anos 90. Rio de Janeiro: Aeroplano Editora, 2001.  

MORICONI, Ítalo. Os cem melhores poemas brasileiros do século. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

_____________. Os cem melhores contos brasileiros do século. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

Nêumanne Pinto, José. Os cem melhores contos brasileiros do século. São Paulo: Geração editorial, 2001. 

21 de julho de 2017

Empoderamento de Professores e Professoras

Camila Alexandrini 
Tiago Martins de Morais 

Imagem: Marina Ancona


Ser professores tem sido nossa maior aventura. E há quem considere os aventureiros algum tipo inconsequente, que, sem elaborar o trajeto da viagem, sai em busca do nada. É exatamente na contramão deste discurso que instauramos nosso devir-ser. Somos professores jovens, porque nos compreendemos sempre aprendendo, e há aqueles que sabem muito mais do que nós. E aqui a condição básica do devir-docente: considerar o percurso um acontecimento - acontecimento esse que é ruptura.

Neste percurso que se constitui por meio de experiências vividas, trocas de saberes, incômodo contínuo, pesquisa rizomática, ser professor tem sido uma aventura nômade, onde o deslocamento é provocado pelo desejo e pelos agenciamentos de seu fazer. Por estarmos juntos, convidamos outros professores-aventureiros a continuar - porque esse não deve ser um investimento solitário.

Juntos e empoderados deveriam estar todos os professores. E é claro que não estamos cegos à realidade educacional brasileira, sentimos seus efeitos e convivemos com as suas amarras. Estamos aqui, porém, pensativos sobre um dos sentimentos que percorre nossos dias: a insegurança. Tantas vezes fruto de um sistema educacional  - que desvaloriza o fazer docente, que desprestigia a sua rotina diária, que desencoraja a inovação, a criatividade e a vivacidade da utopia de um saber sempre compartilhado - a insegurança transforma o corpo (do) docente em um corpo que reproduz velhos hábitos, velhas didáticas, velhas formas de se pensar o espaço de ensino e aprendizagem. A insegurança resulta na impossibilidade do professor se ver como autor e criador desse(s) espaço(s). Quando inseguros, somos levados, muitas vezes, a duvidar de nossa capacidade profissional e acadêmica de decidir o que consideramos melhor a estudantes com quem construímos o saber.

Tanto em instituições privadas, quanto em instituições públicas de ensino, as instituições de poder e saber provocam seus abalos. Sob diversas camadas de autoridade, professores chamados de subversivos poderão ser silenciados. Professor é, no entanto, máquina de guerra, avessa à compreensão que o Estado faz do universo social. Para ser professor é preciso que se encontre o ritornelo de todas essas camadas para dali sair e se tornar outro. Professor age neste território sem dono, sem hierarquia, sem propriedade. Em outras palavras, se considerarmos o conhecimento a maior pulsão à transformação de nossa sociedade e de nossas relações sociais e afetivas, professores serão sempre a subversão deste jogo.

Há cerca de um ano e meio, estamos atuando na formação de professores e temos encontrado sujeitos curiosos com a prática que eles mesmo constituem. Parecem duvidar do que sabem, do que podem fazer, da potência de sua prática. Ouvem-se pouco, compartilham saberes que não são os deles, subjugam-se diante da realidade das escolas, das salas de aula, do Estado. A curiosidade com que se olham não se trata da curiosidade epistemológica da qual nos fala Paulo Freire. Trata-se da curiosidade estranha de não se reconhecerem como linha de fuga ao que aprisiona suas práticas.

Essa fraqueza de empoderamento passa por diversas questões: (1) de ordem subjetiva - quando jovens, pensamos ser a ausência de larga experiência o que nos faz tão impotentes diante do complexo território que é o do ensino; quando experientes, desacreditamos do que anos de vivência nos ensinaram; (2) de ordem do político - ensinar é tarefa política, cambaleiam entre empregos mal remunerados e instituições de ensino conservadoras os professores que compreendem o ensino como tal; (3) de ordem institucional - o sistema educacional de ensino no Brasil, com poucas exceções, vê o professor como o último membro da hierarquia institucional, suas escolhas e decisões continuam atreladas ao topo desta organização. (4) de ordem social - que lugar ocupa o professor no território da sociedade? Quando não atrelados às demandas do Estado, da própria escola, de instituições privadas, da família brasileira, professores podem se sentir apenas os responsáveis pelo cumprimento de tarefas distantes da realidade de seus alunos, da vida que almejam construir em comunidade, das relações humanas fundamentadas naquele espaço de vida que, afinal de contas, é a sala de aula.

Em outra via, no papel de professores, dentro de instituições, muito ouvimos de nossos colegas um discurso potente, cheio de sonhos e utopias sobre o papel do ensino. No entanto, ao mesmo tempo em que potentes, esses sonhos eram ditos em voz baixa, cheios de medo e obliterados pela resignação das imposições institucionais, da pressa, da burocracia, do acúmulo de trabalho e da sombria meta de “vencer” quantidades excessivas de conteúdo. No papel de formadores, em cursos e palestras, quando puxamos a discussão sobre o que é afinal ser professor/a - sabedores de que a visão que temos sobre nossa identidade docente determina nossas práticas - recebemos palavras-ponte, palavras-sonho, mas apenas palavras. Apenas palavras, pois na prática vemos um aprisionamento na falsa segurança das tradições, o medo do voo, o receio do desvio.

Daí, pois, entendemos que um dos principais objetivos da formação de professores é o empoderamento. É a prática de estimular que as palavras-potência ditas em tom baixo se tornem gritos e consciência ética da impossibilidade de continuarmos a praticar uma educação que não vincula conhecimento e vida, que não estimula à criação, que não olha a diversidade, que não foge das práticas homogeneizadoras.

A prática da formação de professores precisa tocar na ferida desconfortável de que temos treinado nossos estudantes, seja na escola seja no ensino superior, para passar em provas, para memorizar palavras e fórmulas, para se sobrecarregar de conteúdos e ter pouco espaço para pensar e para criar. Com isso, não queremos, é claro, manter o eixo apenas nos problemas ou mergulhar tanto no passado a ponto de nos soterrar de um conhecimento histórico e erudito que nos impeça de pensar a partir do momento presente com a urgência da revolução necessária. No entanto, naquilo que se refere ao ensino, temos percebido como olhar para o passado nos faz entender (a partir da lógica do susto) que práticas estão se repetindo há tempo demais.

No contexto de trabalho pedagógico dos jesuítas - a partir de 1547 -, encontramos ações comuns entre muitos profissionais hoje. O professor repete o livro, estimula que o estudante assimile palavras mortas e as copie para uma folha em branco. A qualidade da cópia do estudante - prova de sua boa memória - é a garantia do aprendizado.  

Ainda hoje, em nós docentes, habita esse professor-explicador e repetidor que igualmente ensina aos estudantes que sejam repetidores. E não é que façamos por mal, muito pelo contrário, assimilamos que melhores somos quanto melhores são nossas explicações, quanto mais conteúdo e informações conseguirmos “transmitir” durante um semestre ou ano letivo. Nos esforçamos imensamente, às vezes ao ponto da sobrecarga emocional, para oferecer aquilo que achamos ser o nosso melhor, sem nos darmos conta - por não habitar um sistema que estimule o contrário - de que emancipar e dar autonomia é caminhar por outras vias. Subjetivados por um modus operandi que nos cerceia a subversão, ensinamos de uma maneira homogeneizadora ignorando que aprender é uma prática individual e, portanto, singular. Cada um aprende de formas diversas e a manifestação dessa diversidade de formas de acessar um conhecimento é o que enriquece o ambiente de aprendizado. No entanto, as formas sacralizadas prendem os docentes a um padrão de comportamento que estimula nada além de sua própria passividade, de sua incapacidade de ser autor da própria aula. Mecanizam-se e mecanizam as gerações vindouras.

A nós, professores e professoras, cabe não esquecer, também fomos desestimulados à criação quando, por uma média de 14 anos, estivemos submetidos ao ensino tradicional. Fomos alunos e alunas, filhos e filhas de escolas-prisão. Antes de adentrarmos as licenciaturas, assimilamos uma imagem retrógrada do que é a docência. O quadro insuficiente da formação de professores das universidades quase nada resolve para tirar de nosso organismo uma educação-tradição, uma educação opressiva. Quando assumimos nossos postos, as salas de aula, tanto as instituições quanto muitos de nossos colegas nos estimulam na direção do passado.

Muito embora, a maior parte dos grandes pensadores da educação tenha afirmado que mais aprendemos quanto mais agimos, que mais uma prática pedagógica faz sentido quanto mais tiver vínculo com a realidade do estudante, quanto mais for cheia de vida e de potência, muito embora um arsenal maravilhoso de pensamento sobre o ensinar-aprender, predominam figuras de autoridade nas direções, nas coordenações e até mesmo entre os professores que, vítimas de um autoritarismo sistêmico, estão sempre prontos a dizer àqueles que saem da rota que um passo para longe das tradições não é uma aula, não é educação. A força do conservadorismo é tão forte que apaga qualquer incêndio de ousadia e criatividade de professores dispostos a ir além.

O quadro é talvez digno de uma tragédia kafkiana. Temos teorias pedagógicas pulsantes que nos encaminham a uma outra forma de agir-docente, temos parâmetros curriculares e leis que nos estimulam a sair do marasmo do conteudismo empilhador, dos conceitos vazios, dos quadros cheios, temos Paulo Freire, temos LDB, temos PCN’s, temos BNCC, temos autores nos recordando do papel social do Ensino Superior, da importância da interdisciplinaridade e, ainda assim, tudo isso não basta para impedir que continuemos a caminhar para trás.  

Sejamos nós, quando no papel de formadores de professores, a estimular o acesso a esse arsenal de guerra contra a tradição, a lembrar que ensinamos para a emancipação e para a autonomia, para a ruptura com modelos que têm como premissa a ausência de liberdade e todas as perigosas consequências de tal ausência.

Sejamos nós, quando nesse papel de formadores, a insistir que as instituições de ensino sejam locus constante de pensamento conjunto - evitando a prática individualista - sobre o ensino. Seja o desafio de formar professores prática de relembrar a consciência ética de que cada uma de nossas ações docentes deve ser pensada para estimular a curiosidade, a criação, o desvio, e não a repetição, a subserviência e a impossibilidade do devir-ser.

1 de julho de 2017

Literatura indígena: quando as vozes da origem falam [e escrevem]

Luana Pagung

Imagem: Devair Fiorotti



A cultura indígena pode ser vista como parte essencial da formação da cultura brasileira, todavia, sua inestimável contribuição, em especial nas manifestações da nossa literatura, é pouco conhecida, difundida e valorizada. Falar sobre povos indígenas ainda é adentrar em um espaço marginalizado. Abordar sua literatura é, nesse sentido, se equilibrar ainda mais à margem, considerando a invisibilidade que esta produção sofreu e ainda sofre. Os povos nativos foram expostos a um longo e progressivo período de apagamento de sua memória cultural desde os primeiros encontros, que, com o início do ciclo colonial, se aprofundou na imagem ambígua de idealização ou de demonização dos povos ameríndios. Com esse movimento, toda sua elaboração narrativa também foi silenciada. Esse histórico reverbera ainda hoje nos preconceitos e estereótipos estabelecidos em relação a esse grupo e suas manifestações literárias.
A diversidade de povos indígenas no Brasil, bem como as suas particularidades culturais são grandiosas. Segundo o Instituto Socioambiental (ISA)[1], há aproximadamente 253 povos indígenas no Brasil, dos quais 45 também vivem do outro lado da fronteira, em países limítrofes. Estima-se que existem hoje cerca de 150 línguas indígenas em território brasileiro, classificadas em dois grandes troncos, o Tupi e o Macro-Jê, que se subdividem em diversas famílias linguísticas. Entretanto, somente a partir da Constituição da República Federativa de 1988, ficou reconhecida, oficialmente, a existência de línguas indígenas no Brasil. Desde então, com esse reconhecimento e tendo seus direitos assegurados em outras medidas legais, os povos originários passaram a ter a possibilidade de desenvolver um processo de ensino-aprendizagem diferenciado e, consequentemente, a criação e o aprimoramento de suas práticas de escrita e de produção literária, tanto em suas línguas de origem, quanto em português.
É relevante salientar que a Literatura Indígena no Brasil mostra-se como um movimento literário contemporâneo enquanto entrada no universo da letra e do mundo impresso, porém, a vocação enunciativa dos povos indígenas sempre existiu através da oralidade. Antes do contato com povos não-indígenas, as populações ameríndias brasileiras eram ágrafas (sendo que ausência de tradição escrita não necessariamente significa ausência de tradição gráfica, existe uma picturalidade diversa muito viva entre a maioria dos povos) e sua expressão da arte narrativa sobreviveu por meio da tradição oral, repousando unicamente na memória do contador/narrador. Nas sociedades indígenas cabe aos mais velhos e sábios da etnia essa função. São eles que repassam esse conhecimento através da fala, do contar das estórias tradicionais.
O registro impresso das narrativas de tradição oral iniciou-se com o trabalho de diversos pesquisadores, em particular antropólogos, etnólogos e escritores folcloristas. Desse percurso, surgiram coletâneas de mitos e contos populares, muitas delas sendo estabelecidas como Folclore no imaginário brasileiro. Contudo, foi apenas em um processo recente de apropriação dessa escrita, que os povos indígenas passaram a figurar como sujeitos da literatura e não mais apenas como seu objeto, textos de autoria indígena passaram a evidenciar-se nesse cenário.
Os escritores e escritoras indígenas escrevem sobre os mais variados assuntos que perpassam sua cultura, sua realidade e suas crenças. Dão vida a textos tanto em prosa quanto em verso, transitando entre gêneros literários multímodos. Seus livros são compostos de histórias de antigamente (narrativas tradicionais compartilhadas na autoria coletiva de suas etnias) e da atualidade (narrativas de autoria individual, que repousam tanto na ficção, quanto na escrita de resistência, atravessadas pelas lutas e causas indígenas). Constantemente, são permeados por criatividade verbal e elaboração da composição narrativa. Uma escrita que é ligada ao seu local de pertencimento, assim sendo, faz parte do locus que é a Literatura Brasileira.
Esse reconhecimento e emancipação dos povos indígenas no que tange às suas próprias manifestações narrativas têm sido fundamental para que, nas três últimas décadas, tenha ocorrido uma mudança de perspectiva sobre esse objeto: se antes as manifestações literárias indígenas apresentavam-se muito mais como objeto de estudos antropológicos, cada vez mais a matéria estética dessas narrativas têm adentrado na área das Letras e dos Estudos Literários.
Dessa maneira, compreende-se a importância da valorização e fortalecimento das narrativas indígenas, que refletem sua cosmovisão e apresentam-se como um veículo de renovação da identidade étnica. Para nós, leitores não-indígenas, abordá-las é ter contato com um mundo performático criativo e elaborado – linguístico, estético e historicamente – que nos possibilita entender e acompanhar a inserção dessa cultura no mundo atual. Ademais, nos aproxima e traz a oportunidade de conhecer melhor a si através da compreensão do outro, uma reflexão para a sociedade brasileira a respeito de um patrimônio que lhe é constitutivo. Se as vozes dessa nova origem falam e escrevem, nós precisamos ouvi-las e lê-las. Como pesquisadores na universidade, precisamos cada vez mais nos debruçar sobre essas produções, cuja diversidade literária foi ainda tão pouco explorada.




[1] (ISA) - https://pib.socioambiental.org