1 de julho de 2017

Literatura indígena: quando as vozes da origem falam [e escrevem]

Luana Pagung

Imagem: Devair Fiorotti



A cultura indígena pode ser vista como parte essencial da formação da cultura brasileira, todavia, sua inestimável contribuição, em especial nas manifestações da nossa literatura, é pouco conhecida, difundida e valorizada. Falar sobre povos indígenas ainda é adentrar em um espaço marginalizado. Abordar sua literatura é, nesse sentido, se equilibrar ainda mais à margem, considerando a invisibilidade que esta produção sofreu e ainda sofre. Os povos nativos foram expostos a um longo e progressivo período de apagamento de sua memória cultural desde os primeiros encontros, que, com o início do ciclo colonial, se aprofundou na imagem ambígua de idealização ou de demonização dos povos ameríndios. Com esse movimento, toda sua elaboração narrativa também foi silenciada. Esse histórico reverbera ainda hoje nos preconceitos e estereótipos estabelecidos em relação a esse grupo e suas manifestações literárias.
A diversidade de povos indígenas no Brasil, bem como as suas particularidades culturais são grandiosas. Segundo o Instituto Socioambiental (ISA)[1], há aproximadamente 253 povos indígenas no Brasil, dos quais 45 também vivem do outro lado da fronteira, em países limítrofes. Estima-se que existem hoje cerca de 150 línguas indígenas em território brasileiro, classificadas em dois grandes troncos, o Tupi e o Macro-Jê, que se subdividem em diversas famílias linguísticas. Entretanto, somente a partir da Constituição da República Federativa de 1988, ficou reconhecida, oficialmente, a existência de línguas indígenas no Brasil. Desde então, com esse reconhecimento e tendo seus direitos assegurados em outras medidas legais, os povos originários passaram a ter a possibilidade de desenvolver um processo de ensino-aprendizagem diferenciado e, consequentemente, a criação e o aprimoramento de suas práticas de escrita e de produção literária, tanto em suas línguas de origem, quanto em português.
É relevante salientar que a Literatura Indígena no Brasil mostra-se como um movimento literário contemporâneo enquanto entrada no universo da letra e do mundo impresso, porém, a vocação enunciativa dos povos indígenas sempre existiu através da oralidade. Antes do contato com povos não-indígenas, as populações ameríndias brasileiras eram ágrafas (sendo que ausência de tradição escrita não necessariamente significa ausência de tradição gráfica, existe uma picturalidade diversa muito viva entre a maioria dos povos) e sua expressão da arte narrativa sobreviveu por meio da tradição oral, repousando unicamente na memória do contador/narrador. Nas sociedades indígenas cabe aos mais velhos e sábios da etnia essa função. São eles que repassam esse conhecimento através da fala, do contar das estórias tradicionais.
O registro impresso das narrativas de tradição oral iniciou-se com o trabalho de diversos pesquisadores, em particular antropólogos, etnólogos e escritores folcloristas. Desse percurso, surgiram coletâneas de mitos e contos populares, muitas delas sendo estabelecidas como Folclore no imaginário brasileiro. Contudo, foi apenas em um processo recente de apropriação dessa escrita, que os povos indígenas passaram a figurar como sujeitos da literatura e não mais apenas como seu objeto, textos de autoria indígena passaram a evidenciar-se nesse cenário.
Os escritores e escritoras indígenas escrevem sobre os mais variados assuntos que perpassam sua cultura, sua realidade e suas crenças. Dão vida a textos tanto em prosa quanto em verso, transitando entre gêneros literários multímodos. Seus livros são compostos de histórias de antigamente (narrativas tradicionais compartilhadas na autoria coletiva de suas etnias) e da atualidade (narrativas de autoria individual, que repousam tanto na ficção, quanto na escrita de resistência, atravessadas pelas lutas e causas indígenas). Constantemente, são permeados por criatividade verbal e elaboração da composição narrativa. Uma escrita que é ligada ao seu local de pertencimento, assim sendo, faz parte do locus que é a Literatura Brasileira.
Esse reconhecimento e emancipação dos povos indígenas no que tange às suas próprias manifestações narrativas têm sido fundamental para que, nas três últimas décadas, tenha ocorrido uma mudança de perspectiva sobre esse objeto: se antes as manifestações literárias indígenas apresentavam-se muito mais como objeto de estudos antropológicos, cada vez mais a matéria estética dessas narrativas têm adentrado na área das Letras e dos Estudos Literários.
Dessa maneira, compreende-se a importância da valorização e fortalecimento das narrativas indígenas, que refletem sua cosmovisão e apresentam-se como um veículo de renovação da identidade étnica. Para nós, leitores não-indígenas, abordá-las é ter contato com um mundo performático criativo e elaborado – linguístico, estético e historicamente – que nos possibilita entender e acompanhar a inserção dessa cultura no mundo atual. Ademais, nos aproxima e traz a oportunidade de conhecer melhor a si através da compreensão do outro, uma reflexão para a sociedade brasileira a respeito de um patrimônio que lhe é constitutivo. Se as vozes dessa nova origem falam e escrevem, nós precisamos ouvi-las e lê-las. Como pesquisadores na universidade, precisamos cada vez mais nos debruçar sobre essas produções, cuja diversidade literária foi ainda tão pouco explorada.




[1] (ISA) - https://pib.socioambiental.org



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