25 de março de 2017

Literatura como exposição?

Pedro Ivo Rocha de Macedo


Imagem: Alec Monopoly

O Brasil não é um país de leitores, nem de consumidores de literatura.  Por aqui, o livro ainda é um objeto associado à alta cultura e a um saber erudito vedado a grande parte da população, pouco letrada e com índices preocupantes de analfabetismo funcional. Entretanto, em 2015, nesse mesmo país de poucos leitores, meio milhão de volumes foram comercializados do livro Morri para viver, depoimento da ex-modelo Andressa Urach, cujo maior mérito até então tinha sido o vice-campeonato do concurso Miss Bumbum.
O caso do texto de Urach é excepcional pelo número de vendas, parcialmente explicáveis pela grande difusão midiática por sérias complicações de saúde decorrentes da aplicação de produtos cosméticos não autorizados para o torneamento das pernas e pela posterior conversão religiosa e chancela da Igreja Universal do Reino de Deus ao livro. Mas, ainda que compreensível, seu êxito literário não é menos surpreendente. Sua história pessoal diverge do que usualmente se associa àqueles cujos nomes se estampam nas capas dos volumes visíveis pelas livrarias do país, mas que ainda assim garantiu a publicação de seu livro por uma grande editora, e distribuição nacional. E ela não é a única. Desde a publicação, em 1994, de Caminho das borboletas, livro-depoimento de Adriane Galisteu, há uma presença modesta, mas constante, de narrativas em que o autor/objeto é um indivíduo dificilmente associável ao que é literário no nosso campo de ilustres. São relatos que enfocam as chamadas subcelebridades, personalidades afeitas à mídia de estrato popularesco, um conjunto de meios comunicacionais, seja jornalísticos ou de entretenimento, caracterizados primariamente não pela qualidade artística ou valor-notícia do que se veicula, mas pelo alcance que este conteúdo conseguiria em audiência e/ou vendagens, podendo resultar em produtos que exigem parca profundidade analítica. 
Os nomes em destaque nos livros são alheios ao discurso literário praticado no campo. A celebridade é normalmente caracterizada como um indivíduo banal, grosseiro e sem conteúdo, mais um produto em função do espetáculo, do que fruto de uma comunicação comprometida com a informação, educação ou socialização. Mas estes mesmos “produtos” são tema de enunciações frequentes no Brasil, num campo literário em que é difícil ser publicado, distribuído e lido. Num país em que a literatura é primazia de poucos, as subcelebridades encontram na narrativa textual mais uma possibilidade de exposição, de se dar ao conhecimento de um determinado público consumidor-leitor, sua audiência.
Como se viabilizam essas narrativas que à primeira vista parecem tão fora de lugar? Antes de mais nada, há dois sintomas de nossos tempos que elas refletem: o fascínio social pela subjetividade e a coroação do “eu” no primeiro plano dos discursos. O desencanto causado pela falência das grandes narrativas sociais e utópicas do século XX trouxe a atenção para o êxito individual, a experimentação dos prazeres e a percepção do sucesso pessoal, com a consolidação de sua enunciação num democratismo plural de narrativas pessoais, com múltiplas vozes, identidades, sujeitos e subjetividades. Nas prateleiras das livrarias, é possível perceber a popularidade dos relatos de vida, seja em narrativas identificadas como ficcionais, ou nos textos tratados como estritamente verificáveis das biografias e autobiografias.  
Esse gênero se afirma na produção literária ao mesmo tempo em que os meios de comunicação massificados reconfiguram a absorção cultural. O mundo foi tomado por novas possibilidades de produção, apresentação e consumo de conteúdo, com aumento inaudito da oferta de informação. O pacto autobiográfico (em que o autor e leitor aceitam que o narrador conta uma história verdadeira sobre si) tem de assumir, portanto, fronteiras mais fluidas para abarcar as narrativas contemporâneas, seja para incluir as profusas narrativas romanescas de autoficção, seja para incluir os textos autobiográficos escritos por ghostwriters ou compostos em colaboração, nos quais o efetivo redator do texto não é a primeira pessoa do discurso.
No mesmo ambiente, a cultura de massa propicia a criação de novos ídolos e heróis. Com a repercussão massiva nos meios comunicacionais a partir do século XX, determinados indivíduos alcançam um status diferenciado de estrelas por seus méritos artísticos ou esportivos, em cujas vidas privadas os meios de comunicação mergulharam para extrair uma substância humana que permitiria a identificação. Na virada do milênio, entretanto, a fama passa a se tornar algo valoroso por si só, prescindindo dos talentos que justificassem a admiração por ela suscitada. Com o advento de novas modalidades comunicacionais, primeiro a televisão e posteriormente a internet, surge, assim, uma nova categoria para o culto do indivíduo que não estava baseada nas habilidades excepcionais dos indivíduos adorados: a celebridade.
A profissão para a celebridade não é sempre muito clara, surge uma categoria de “atriz-cantora-modelo-apresentadora-dançarina” em que nenhuma das atividades é necessariamente exercida – ser famoso é a atividade exercida. Numa era em que a distância entre as esferas íntima/privada e pública se esgarça, as novas estrelas são fruto de uma celebração de seu midiatismo instantâneo, possuindo aquilo que se define como bios midiático, para quem a representação nos meios de difusão de conteúdo se confunde com a sua própria existência. Os indivíduos servem a um mercado que os consome, seja na venda de revistas, na audiência de programas de TV dedicados ao gênero, filmes encetados a toque de caixa.
A subcelebridade seria uma personalidade midiática de alcance inferior, seja por menor acesso aos meios, seja pelo reconhecimento da “seriedade” do seu trabalho. Ele ou ela estaria disposto a quase tudo para cavar uma nota num programa vespertino de fofocas ou uma entrada num blog ou site de internet dedicado aos famosos.  É uma categoria plural e efêmera em que pessoas majoritariamente egressas das camadas mais pobres e desfavorecidas da população revelam bastante sobre a cultura de exaltação do sujeito comum, num universo em que a busca pelo êxito parece fazer sentido por si só.
Para as celebridades, a literatura aparece, então, como mais um veículo de produção de uma identidade narrativa dos sujeitos públicos. A adesão dos leitores/consumidores permite que a exposição da própria celebrização se propague. A proliferação dos títulos biográficos e autobiográficos de personalidades públicas de todas as esferas atesta esse interesse e associação por parte do público leitor, ainda que as narrativas desse conjunto passem ao largo do “bom gosto” literário, das premiações e do reconhecimento dos seus autores, seja pelas qualidades técnicas-estruturais do texto ou por seu apuro estilístico. São narrativas das quais pouco ou nada se ocupam os estudos literários empreendidos no âmbito da academia brasileira, uma vez que fogem ao entendimento dominante da crítica sobre o que merece ser estudado. Entretanto, estudá-los está longe de uma invectiva afrontosa ou subversiva. Trata-se de narrativas que aparecem reiteradamente como produtos viáveis em nosso sistema literário. O estudo dessas obras no jogo de negociações do campo brasileiro envolve não apenas percebê-las pelo discurso e seus autores, mas também considerar o papel de leitores, editores, livreiros, críticos e demais agentes intervenientes na construção de uma obra literária. Esta investigação possibilita um olhar, por meio de nichos de produção, distribuição e recepção que são tradicionalmente ignorados pela academia para o panorama da literatura nacional numa época em que o próprio conceito de literatura é desafiado e suas fronteiras são redefinidas.
São narrativas contemporâneas apartadas do horizonte de expectativas do leitor erudito brasileiro, acostumado à tradição de uma literatura que reproduz continuamente os mesmos sujeitos da concepção elitizada dos autores em atividade no campo um modelo de produção do none literário-social.  De fato, a representação do narrador nesses textos seria uma festa de pluralidade para o leitor no Brasil, exposto habitualmente a narrativas produzidas e protagonizadas por intelectualizados homens brancos, de classe média e heterossexuais. O conjunto de protagonistas das narrativas de maior visibilidade num levantamento inicial dessa modalidade faz antever inflexões tanto sociais como de gênero. Nos dezesseis textos identificados, encontramos doze mulheres e quatro homens. Todos os personagens nestes relatos fogem ao padrão consagrado como objeto da literatura brasileira contemporânea. Há entre eles a dançarina calipígia (Gretchen, em Uma biografia quase não autorizada; Valesca Popozuda em Sou dessas: pronta pro combate), a estudante expulsa após usar um vestido curto (Geisy Arruda, Vestida para Causar), uma ex-prostituta declarada (Andressa Urach, em Morri para viver), “viúvas” de famosos mortos em tragédias de grande comoção (Adriane Galisteu, em Caminho das borboletas: meus 405 dias ao lado de Ayrton Senna; Mirella Zacanini, em Pitchulinha, minha vida com Dinho até que os Mamonas nos separem); artistas transexuais (Roberta Close, em Muito prazer; Nany People, em Ser mulher não é para qualquer um e Thammy Miranda em Nadando contra a corrente); uma ajudante de palco (Na banheira com Luiza Ambiel); ex-participantes de reality shows (Marcelo Arantes, A antietiqueta dos novos famosos; Fani Pacheco, Diário secreto de uma ex-BBB, Val Marchiori, O livro de ouro da Val), a socialite empobrecida (Narcisa Tamborindeguy, em Ai, que loucura!), o ator pornô que se torna pastor (Giuliano Ferreira; Luz, câmera, ação e transformação) e o antigo ídolo adolescente que se perde no mundo das drogas (Rafael Ilha, em As pedras do meu caminho), com algumas dessas categorias se sobrepondo.
O próprio conceito de autoria é colocado em xeque ao contemplar os textos, pois neles, a primeira pessoa do discurso nem sempre coincide com o redator efetivo da narrativa, muitas vezes colhidas por depoimentos não verificáveis concedidos a jornalistas e escritores profissionais. Mas não se trata de simples caricatura, as narrativas são representações discursivas de relatos e experiências que servem à compreensão da identidade narrativa de indivíduos que merecem ser contemplados como tais, a despeito de sua apropriação comercial e midiática e dos preconceitos eruditos de quem deles se aproxima (e destes não me excluo). É preciso ter em conta que a literatura ajuda a construir representações que extrapolam tanto o texto quanto o próprio campo literário em que foi produzida. Existe nas narrativas aqui em tela uma efetiva representação de discursos alheios ao que pratica a “boa” literatura eleita pelos árbitros da elegância estilística no campo. Contudo, são relatos que demarcam um novo posicionamento temático e social, trazendo novas vozes e novos lugares de fala para a reflexão do que se faz literário nas narrativas praticadas no Brasil.
Se o inventário dos narradores contemporâneos na literatura nacional aponta que o leitor brasileiro dificilmente é apresentado às experiências de indivíduos excluídos do espaço elitizado, as narrativas biográficas das subcelebridades oferecem o relato de um grupo de sujeitos marginais na sua própria voz (ou na voz daqueles que foram outorgados a falar por elas) numa investida biográfica de apelo popular. Essas narrativas na interseção entre as formas canonizadas e os produtos estereotípicos da cultura de massas, transcendendo ao “gosto” definido por parâmetros sociológicos ou estéticos e produzindo uma resposta compartilhada neste cruzamento. Haveria diálogo possível entre esses textos fronteiriços e os romances brasileiros contemporâneos de prestígio, especialmente os de autoficção?
Ainda, o indivíduo que narra ou é narrado num texto biográfico produz, mesmo que involuntariamente, uma crônica de seu tempo e de sua realidade social, pois o “eu”, quando expresso, não pode se separar completamente das condições sociais em que surgiu. O texto biográfico, ainda que seja o relato de um único sujeito, é, também, reflexo da expressão de uma época, de uma geração, de uma classe, de uma narrativa comum de identidade. Essa qualidade coletiva é que torna essas histórias pessoais relevantes, venham elas nas formas literárias tradicionais, ou nas modalidades midiatizadas. A extensa exposição midiática a que se submetem os indivíduos narrados por esses textos selecionados nesse projeto, e da qual a literatura surge como mais um modo de divulgação, nos reflete a todos, em maior ou menor grau sujeitos à devassa da intimidade. 
É preciso ter em mente que o intenso interesse popular pela “vida real” destes indivíduos se localiza no espaço em que imaginário e real se confundem e se alimentam um do outro. Os textos ajudam a compor a identidade das celebridades como personagens públicos, e esta identidade representada se confunde com os próprios sujeitos reais, que dela se retroalimentam, tornando-se parte de quem são, ou ao menos, de como continuarão a se mostrar. A identificação do público, da qual a representação engendrada também pelo leitor-receptor dessas narrativas é uma modalidade, se insere num grande esquema social de trocas simbólicas que não podem ser reduzidas apenas à parvoíce dos fãs e aos acordos comerciais transacionados.
Outro dia, quando comecei a me debruçar sobre o tema, eu me peguei profundamente comovido com trecho de um desses livros. Fiquei quase surpreso, afinal era a biografia de um indivíduo que, para ser consumido, se planificara, como assim lá estava eu chorando no primeiro capítulo? Mas a surpresa não durou muito, pois todos os leitores intuem o poder que tem a literatura. A representação empreendida pelo leitor, seja ele leigo ou pesquisador, não se dá de forma apenas interpretativa. A leitura de um texto fornece um espaço privilegiado em que o discurso é perpassado pelos sentidos e imaginação daquele que se aproxima dele nesse último estágio, permitindo que a reconstrução de uma imagem, uma história de vida, seja entremeada de seus afetos. Afetos que, suponho, são cruciais para a refiguração de qualquer indivíduo, ainda mais para os que se apresentam quase desumanizados no complicado sistema da cultura de massas. A minha experiência, de início quase jocosa, com os sujeitos percebidos como subcelebridades me levou a perceber que pessoas apresentadas voluntariamente como produtos de consumo midiático, podem reassumir certa dimensão humana na enunciação literária de suas identidades narrativas, mesmo que inadvertidamente. E isso talvez possa fazer pensar sobre os limites e capacidades da representação por meio da literatura e das trocas que ela propicia, às vezes quase sem querer.

18 de março de 2017

Entre o abaixar e o erguer de uma cabeça

Bruna Paiva de Lucena



Tia Lene, de Guilherme Memi (2016)

Um dos enormes problemas sociais do Brasil é o analfabetismo. Estima-se que 27% de nossa população seja analfabeta, ou seja, por volta de 13 milhões de pessoas em nosso país não escrevem o próprio nome ou leem a identificação das ruas que ora e vez pisam. Em suas vidas, as palavras escritas são o desconhecido, o inatingível, sendo, em diversos contextos, o que os oprime.
Para nós que vivemos envoltos em palavras escritas, em um mundo polifônico de textos em papel e telas, o domínio da leitura e da escrita muitas vezes não perpassa nossos questionamentos, já que o escrito é a substância sobre a qual corriqueiramente nos debruçamos. A prerrogativa do escrito e o imperativo do escriptocêntrico no que se entende por literatura não deixam também de denunciar nossa indiferença para o problema e o seu não enfrentamento. As seguintes indagações podem ser postas nesse sentido: Mas não estamos tratando da literatura? A literatura não pressupõe o escrito, a leitura e a escrita? A constituição da literatura já não implica a exclusão do que não se pode escrever e ler?
A resposta imediata a essas indagações é SIM. No universo acadêmico de preocupações, o não domínio da letra é entendido como algo a ser combatido exclusivamente no âmbito das políticas públicas da educação e cultura, pressupondo o estudo acadêmico da escrita e leitura de seus agentes e consumidores. Conforme comprova ampla pesquisa acadêmica realizada no âmbito da poética das vozes, o entendido como literário é o que se assenta unicamente em bases escriptocêntricas. Os estudos literários conformam-se, de modo geral, no que Antonio Candido designa de direito à literatura, e sua reivindicação é a da aquisição da alfabetização para a democratização do acesso ao texto.
Saber ler e escrever é, inegavelmente, um bem simbólico, um capital cultural que possibilita o acesso a um mundo. O domínio da cultura escrita é um índice de distinção social. Em um país com a imensa desigualdade econômica e social como o nosso, o direito a esse mundo é muitas vezes usurpado. Contudo, seria possível pensar, em um exercício de radicalidade discursiva, mas também existencial, na recusa objetiva a esse bem? Em uma negação à entrada no universo da escrita e no que ele representa? Em um exercício de questionar o a priori inquestionável?
Esse exercício é feito pelo escritor pernambucano Marcelino Freire em seu conto “Totonha”, publicado em 2005, no livro Contos Negreiros, ganhador do prêmio Jabuti de 2006. Este conto é narrado em primeira pessoa pela personagem que dá nome ao texto, Totonha, que, como em um palco, questiona o valor em sua vida do escrever e do ler, além de tratar essas ações como sinônimas de cooptação a um sistema de valores, de modo que se manter alheia a eles é significado como um ato de resistência. Ao final do conto, Totonha diz: “Não preciso ler, moça. A mocinha que aprenda. O doutor. O presidente é que precisa saber o que assinou. Eu é que não vou baixar minha cabeça para escrever”.
O tom do conto é o de resposta à afirmação-indagação: você não saber ler, você não sabe escrever; por que não aprende? A personagem está claramente rebatendo a isso: “Capim sabe ler? Escrever? Já viu cachorro letrado, científico? Já viu juízo de valor? Em quê? Não quero aprender, dispenso”. É claro o tom de desdém desaforado adotado pela personagem. O conto consiste justamente nesse espaço de resposta performática, em que a página funciona como palco para a encenação de uma possibilidade e não de uma única verdade, já que se suspende a ideia de totalidade ao se escancarar teatralmente os limites dos significados presentes na realidade.
Trata-se de um exercício retórico e teatral que, apesar de sua parcialidade, tem um importante caráter problematizador da segregação gerada pela diferença cultural – os que leem e escrevem e os que não. Não se trata da possibilidade de escolha entre desfrutar ou não do mundo das palavras, mas na defesa do valor de quem não lê, até mesmo da defesa ressentida da sua existência. Essa poética anuncia performaticamente uma ambivalência de valores, já que para Totonha aceitar a cultura escrita parece ser aceitar uma unissonância cultural e existencial, baixar a cabeça a uma imposta cultura de elite. Ler e escrever servem para quê? Essa personagem recusa a experiência do aprendizado da língua, da escrita, da literatura, renuncia as funções da escrita e da leitura.
Assim, instauram-se gestos de negação ao planejado, ao discurso previsível. Totonha vira a mesa com um revide performático, como uma recusa perante o mundo da escrita. A incômoda alternativa escolhida pela personagem ganha corpo no texto, a despeito de na realidade seu discurso ser amplamente refutável. Daí se percebe o poder que a performatividade agrega a esse texto, criando-se na articulação da personagem uma posição de resistência.
A performance é a estética adotada para a ressignificação de uma ausência, positivada pela personagem como uma outra forma de se viver, como uma falta para os outros, mas que para ela não existe, como “a geografia do rio seco”e “o risco da poeira”. Ela negligencia as implicações de não se saber ler e escrever no mundo prático, desfazendo-se dessa negatividade, e dá a ver a dispensabilidade das letras em sua vida: “Morrer, já sei. Comer, também. E vez em quando, ir atrás de preá, caruá. Roer osso de tatu. Adivinhar quando a coceira é só uma coceira, não é uma doença. Tenha santa paciência!”, diz Totonha. A narrativa questiona o pressuposto da falta de quem não sabe ler e escrever e mesmo articula um gesto de extremo desprezo a quem duvida da autossuficiência e totalidade de quem não domina as letras, ao mesmo tempo em que afirma a possibilidade de se viver sem sentir-se diminuída pelo não acesso ao universo da escrita.
A voz de Totonha nos impele a realizar o movimento que o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro denomina de dupla implicação, uma vez que o posicionamento da personagem carrega a potência de alterar o discurso de verdade segundo o qual ler e escrever são bens que todos desejam, havendo a comum alteração dos discursos em jogo. Uma leitura que não compreenda o discurso de Totonha como uma alteridade possível, vivível e verossímil desumaniza e mesmo destitui de valor um mundo oral, não escriptocêntrico.
Fazendo também um movimento de negação combativa – que consiste em uma forma de superar a mera negação constitutiva e colocar-se em posição de combate, invertendo a ordem de valores estabelecidos historicamente, ameaçando e desestabilizando – a slammer brasiliense Meimei Bastos diz em poema publicado em 30 de março de 2016 em uma rede social:

Eu num li Beauvoir, 
fiz foi presenciar a covarde
“superioridade” masculina
nos roxos de minha mãe.
Foi daí que eu me inventei feminista,
sem nem saber, 
que toda vez que me punha na frente
pra ele num bater 
pra defender
com pouco mais de quatro anos
eu já lutava 
contra o que tempos depois
iria conhecer pelo nome machismo.
Eu num li foi nada!
fiz foi viver!
ver,
vejo!

Aqui, reivindica-se a aprendizagem pela experiência na carne e não mediada por livros. Contrapõem-se ler a viver, traçando-se uma dicotomia entre essas ações no que se refere às formas de se acessar ao mundo. As marcas da violência de gênero são apontadas como a base para a formulação de uma consciência feminista, marcada essencialmente por determinado espaço de classe, de gênero e de raça. O feminismo construído sem suas teorias, que são anteriores a sua prática, é tomado nesse poema como arma que se constitui a partir de uma experiência de vida, sendo a leitura apontada apenas como outra forma de conhecimento. Aqui a vivência é a partida para o pensamento.
Contrariamente à atitude de Totonha, e também à encenada pela narradora do poema de Meimei Bastos, em que ambas as vozes poéticas se recusam a abaixar a cabeça para ler, no poema “Não vou mais lavar os pratos”, publicado na obra homônima de 2010 de Cristiane Sobral, escritora carioca radicada em Brasília, abaixar a cabeça para ler, no sentido de adentrar e dominar o escrito, é um exercício de libertação, redenção de um espaço de servidão, e uma forma de acesso a um mundo feito para poucos, de liberdade e cuidado consigo. Transcrevo um trecho:

Não vou mais lavar os pratos
Nem vou limpar a poeira dos móveis
Sinto muito. Comecei a ler
Abri outro dia um livro e uma semana depois decidi
Não levo mais o lixo para a lixeira
Nem arrumo a bagunça das folhas que caem no quintal
Sinto muito. Depois de ler percebi a estética dos pratos
a estética dos traços, a ética
A estática
Olho minhas mãos quando mudam a página dos livros
mãos bem mais macias que antes
e sinto que posso começar a ser a todo instante

Nesse poema, a relação entre empoderamento e acesso ao mundo escriptocêntrico é clara. A distinção entre trabalho braçal e intelectual é posta e mesmo exagerada em uma performance do eu-lírico, na tentativa de ressaltar a tomada deliberada de determinado pensamento perante a vida.
Em contraposição à personagem Totonha e ao eu-lírico de Meimei Bastos, esse poema festeja a libertação da vida doméstica, que no poema é destituída de significância, e a apropriação do bem simbólico que é a leitura significativa. A experiência na vida doméstica entendida nos outros poemas como fonte de conhecimento sobre a vida como um todo é rejeitada performaticamente em “Não vou mais lavar os pratos”, em que o eu lírico faz uma elegia ao mundo escriptocêntrico no qual acaba de entrar. A divisão entre trabalho prático e intelectual é expressa entre as ações de lavar os patos – metáfora de servidão e submissão – e de ler – formulada como uma ação capaz de libertar, comparada ao final do poema com a abolição da escravidão. Aqui o contato e a apropriação da cultura escrita têm o poder de livrar a personagem do mundo ordinário e do trabalho não intelectual.
O conjunto de textos apresentados aqui encena um território de disputas simbólicas que constituem o mundo da escrita e leitura e nos impele a pensar sobre as diferentes dimensões envolvidas no dado direito à leitura. As três personagens, adotando estratégias argumentativas distintas, traçam formas de desconstrução e resistência às opressões que o mundo lhes apresenta, recusando-se ao vitimismo que as colocariam em um espaço de despossuídas de palavras, de culturas. A altivez das personagens apresentadas são sintomas do empoderamento de mulheres que narram sua própria história.
Ao lermos esses três textos parece que estamos diante de corpos vivos que falam, que contam sua própria história, sendo o ato performático o recurso estético empregado para conferir verossimilhança e mesmo para adensar os textos. O jogo retórico e performático empregado é o que de alguma forma nos permite pensar o binarismo entre cultura/conhecimento escriptocêntrico e cultura/conhecimento prático.
Vale ressaltar, contudo, que consiste em um impasse meramente retórico, encenado em performance, porque a escrita e a leitura não têm sido postas como possibilidades, das quais poderíamos nos apropriar ou não. Ao contrário, apresentam-se como privilégios, que são revelados do avesso pelo desdém de Totonha ou a supervalorização e superpoderes da leitura apontados pelo eu-lírico de Cris Sobral.
É quase impossível não avaliarmos o discurso que perpassa essas três narrativas como idealista, parcial e utópico. Contudo, as armadilhas ideológicas nos apontam para um exercício de radicalidade analítica que questiona a supremacia escriptocêntrica, aponta para nossos preconceitos e apresenta existências fora do jogo de palavras.
Mesmo que em nós paire uma forte tendência a fazer uma elegia à escrita e leitura, aqui não é esse o posicionamento. Buscou-se pensar os impasses, mesmo que apenas possíveis em um nível discursivo, retórico, performático, na tentativa de redimensionar o valor da cultura letrada e seu papel como criador de discriminações. Talvez o exercício seja não o de discriminar, mas o de positivar as diferenças e a coexistência de posições contrastantes, tendo em vista que o papel da educação é não só ampliar os acessos a outras realidades, mas também redimensionar o que carregamos em nós mesmos. As hierarquias a que somos sujeitos durante a vida não devem ser capazes de nos retirar de nós mesmos, mas, ao contrário, podem ser o ponto de partida para que nós aprendamos a nos colocar no lugar de outros, neste caso, das pessoas que nunca lerão essas palavras, porém que, de alguma forma, as vivem.


8 de março de 2017

Essas mulheres

Por Paula Dutra

Imagem: Shiko


As flores com que me vestiram
eram só
para arder melhor.
Paula Tavares


Falar da literatura produzida por mulheres ainda é, infelizmente, falar de silêncios. Não o silêncio de quem não tem nada a dizer e se conforma em apenas ouvir os discursos hegemônicos. Pelo contrário, é um silêncio forçado, que há muito tenta apagar as histórias, os gritos, a dor, a voz e, acima de tudo, a força dessas mulheres que ousam escrever, que sabem ter algo importante a dizer. Mas esse silenciamento disfarçado de ‘silêncio’ – tão opressor como outras formas de violência – talvez até possa enganar quem está mais desatento, mas já não engana grande parte da população, principalmente essa nova geração de mulheres que está querendo ler mais escritoras e que têm contestado a ausência de livros publicados por mulheres pelas grandes editoras (e, consequentemente, sua presença nas principais livrarias), assim como sua ausência nas listas dos grandes prêmios literários.
Esse cenário já foi comprovado pela academia, pelo menos no contexto brasileiro, com pesquisas estatísticas como as que foram coordenadas pela professora Regina Dalcastagnè na Universidade de Brasília, que analisou centenas de romances publicados pelas principais editoras brasileiras durante um período de 15 anos (de 1990 a 2004) e constatou que o espaço destinado às mulheres, seja como autoras, seja como personagens de romances, ainda é muito pequeno, quando não estereotipado. Dos 165 autores catalogados pela pesquisa, 120 eram homens, ou seja, 72,7%. Além disso, do total de autores, 93,9% eram brancos. O mesmo foi observado nos principais prêmios literários brasileiros e, mais recentemente, ficou mais do que evidente em uma das principais feiras literárias do país. Segundo Regina Dalcastagnè, em Literatura brasileira contemporânea: um território contestado, entre os anos 2006 e 2011, foram premiados 29 autores homens e apenas uma mulher (na categoria estreante, do Prêmio São Paulo de Literatura).
No entanto, a mobilização através das redes sociais e da possibilidade de diálogo promovida pela internet ganha força com o surgimento de clubes de leitura em todo o Brasil, como o Leia Mulheres, que tem estimulado a leitura e a descoberta de escritoras até então desconhecidas por grande parte das leitoras que, apesar de serem maioria, ainda não tinham se dado conta de sua força e da pluralidade da produção das autoras.
Há quase cem anos, Virginia Woolf, em seu ensaio intitulado Um teto todo seu, refletia sobre a desigualdade de acesso ao conhecimento entre homens e mulheres na sociedade inglesa da época, denunciando de que forma isso impedia que as mulheres conseguissem escrever e produzir literatura. Para Woolf, para que as mulheres pudessem se tornar escritoras, elas precisavam ganhar quinhentas libras por ano e ter um teto todo seu, de preferência, com tranca na porta. Apesar da importância desse ensaio de Woolf, muito atual ainda nos dias de hoje, uma questão importante não foi observada pela escritora. Mesmo tendo um teto todo seu e sendo capaz de produzir bons textos literários, as escritoras negras ainda tem que se confrontar com a indiferença ainda mais perversa do mercado editorial. Em um país racista como o Brasil, pode-se imaginar como isso é doloroso e difícil. As narrativas são, sim, espaços de disputa, como nos mostra Regina Dalcastagnè.
Quando pensamos em escritoras que não conseguem a visibilidade que merecem no cenário editorial, a lista é imensa. Cada leitora ou leitor de uma parte do país certamente poderia citar muitos nomes de autoras cujos livros não conseguem circular nas principais livrarias. Já que falamos de um teto todo seu, o primeiro nome que vem à cabeça é Carolina Maria de Jesus e seu Quarto de despejo, uma prova de que a norma culta é mesmo muitas vezes usada como fator de exclusão. Mas a beleza do texto de Carolina, que com muita coragem dizia “Sou poeta”, permanece. Contudo, é sempre estranho pensar que é mais fácil adquirir um exemplar dos livros de Carolina Maria de Jesus em língua estrangeira, já que é uma das escritoras brasileiras mais estudadas no exterior, do que conseguir encontrar um exemplar de seus livros em uma livraria de qualquer cidade brasileira. Mais recentemente, a escritora Martha Batalha, nascida em Recife, só conseguiu ter seu livro A vida invisível de Eurídice Gusmão publicado no Brasil, após várias recusas, depois de se tornar um sucesso no exterior, com traduções para dez idiomas. Ainda esperamos que o mesmo aconteça com Carolina Maria de Jesus por aqui.
Ponciá Vicêncio e Becos da Memória, de Conceição Evaristo, são nomes que vem à mente logo em seguida, por trazerem outras vozes tão indispensáveis para que a literatura brasileira seja mais rica e mais plural, assim como Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves, que revela parte importante da história brasileira, quase nunca contada sob a perspectiva de quem também tem o direito de contá-la. De Brasília à Bahia, poetas como Cristiane Sobral e Lívia Natália contam as dores e os amores das mulheres negras em poemas que nos arrastam feito correntezas por histórias que falam de luta, de força, de afeto. Não vou mais lavar os pratos, é o que elas dizem com a sua poesia visceral.
Ainda falando em poesia, lembro-me da delicadeza dos poemas de Ana Martins Marques ou da irreverência da poeta mineira Ana Elisa Ribeiro, e também de Angélica Freitas que nos lembra de que Um útero é do tamanho de um punho. Entre tantos nomes que despontaram há pouco tempo, em grande parte por finalmente serem vencedoras de importantes premiações literárias, é mais do que necessário lembrar aquelas que trazem o sertão de volta para a literatura, como Maria Valéria Rezende, Socorro Acioli e Marília Arnaud, ou que inovam ao falar de amor, com sensibilidade e leveza, para além das fronteiras de gênero, como a amora de Natália Borges Polesso. Outros cantos, no entanto, requerem outros formatos, e acabam por encontrar outros caminhos para escrever suas histórias, como tem acontecido nas periferias das cidades, nos saraus e slams, quando o poema existe para ser recitado, proclamado, ou cantado ao som do rap e do hip-hop. O que importa mesmo é que essas incríveis mulheres, de diferentes idades, raças, etnias, gerações, classes sociais e cidades seguem lutando pelo seu espaço, para serem ouvidas. Não há dúvidas de que elas têm muito a dizer. Cabe a você, leitora/leitor, neste dia 8 de março, substituir aquelas flores, já que alguns presentes podem ser amargos como os frutos (como bem fala a poeta angolana Paula Tavares), por um livro de uma escritora que você nunca leu, mas – tenho certeza – vai adorar ler. As opções são infinitas e bem maiores do que este ou qualquer outro texto podem conter. Divirta-se na companhia delas. Beijo, boa sorte.

*Algumas autoras que você deveria conhecer foram citadas ao longo deste texto em negrito. Grande parte dos títulos aparece aqui e ali em itálico, espero que você consiga encontrá-los.